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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A prenda de Natal




Saiu triste da festa. Antes, parecia ter se divertido com os amiguinhos enquanto esperavam ansiosos a hora do sorteio dos brindes de natal. Todos receberam um papel com os números, e a cada número sorteado ela esperava ansiosa por sua prenda.
Dentro de uma grande cesta de palha, ao lado de uma árvore de natal preparada com galhos de uma árvore recolhida ao redor, e caprichosamente decorada pelos moradores daquela comunidade, bichinhos de pelúcia, bonecas, jogos infantis, e bolas, eram os presentes mais desejados, e que aos poucos iam chegando às mãos dos primeiros sorteados.
Número 20. Pronto! foi a vez de um dos pequenos receber o cavalinho de pelúcia que há anos tinha feito a alegria de outra criança, e que depois de tempos esquecido em algum lugar foi entregue por seu dono para que a mãe juntasse com outras prendas que seriam entregues para a doação. Era ainda um brinquedo conservado, desses que parecem que não se fabricam mais, e que depois de limpo e embalado chegaria como novo às mãos de uma criança


 
Número 35.E lá estava a linda boneca, de longos cabelos pretos e olhos bem azuis, como os cobiçados por tantas mães de anjinhos, e que ia agora para os braços de uma outra bonequinha, que tinha olhos escuros, opacos, mas que logo ficaram brilhantes ao segurar aquele inesperada prenda de natal.
- Olha,mamãe, como ela é bonita - disse a pequena, agarrada a sua nova companheira.

E pouco a pouco os números iam sendo sorteados, fazendo a festa de crianças e adultos que também foram sorteados com algumas prendas de natal. A bola, embalada em um lindo papel verde, chegou nas mãos do menino Yan, que ha meses sonhava em ter uma bola de verdade, costurada e de couraça, para chutar no campo com a turminha da Bititinga.
- A outra bola, disse ele, era mais para os meninos maiores, e com essa vamos ter mais tempo para brincar.
E na saída, a menina segura a prenda e a mãe, como se desculpando, foi logo dizendo:- É que ela ganhou um livro, mas queria ganhar a boneca.
Vi que a menina nem sequer tinha desembrulhado o papel celofane vermelho com um belo laço verde claro que embalava o livro. Mas, segurava o embrulho nos braços como se segurasse a boneca tão sonhada.
- Você não gosta de histórias? - Perguntei, meio sem graça.
- A menina, um pouco encabulada, olhou para a mãe, e a mãe novamente foi quem respondeu:

- É que ela ainda não sabe ler direito. - Ela só gosta mesmo é de brincar de boneca.
Olhei para a menina, que parecia ter uns 7 ou 8 anos, e que também era uma das mais ativas nas brincadeiras com a comunidade. Gostava de pular, dançar, desenhar, correr...e disse:
- É. De fato uma boneca é um lindo presente, mas existem muitos outros presentes que podem estar escondidos bem aí, dentro de um novo presente como esse livro que você  ganhou.
Ela esboçou um sorriso, e junto com a mãe foram para a casa, com a prenda de natal 
Antes de dormir a menina colocou o presente em uma mesinha, ao lado da cama. Lembrou mais uma vez dos outros brinquedos sorteados na festa, da bela boneca de olhos azuis...., e antes de dormir, ouviu uma voz que parecia sair do embrulho vermelho.
- E então, menina, você não vai me abrir? vai me deixar fechado aqui, enquanto eu poderia te mostrar lugares diferentes, te fazer conhecer novos amigos, te ensinar tantas coisas novas...
Sem acreditar muito naquela vozinha, a menina, ainda sonolenta, resolveu abrir a prenda e então deu de cara com a capa de um livro que tinha a ilustração de uma boneca. Parecia engraçada, sardenta, toda colorida, feita de pedaços de pano. Não tinha os cabelos bonitos e os olhos azuis, mas dela emanava muita alegria. A menina estava tão acostumada a sonhar com as bonecas de vitrine que essa, assim, tão simples, parecia também muito familiar. Parecia com a boneca Emília, das história de Monteiro Lobato, que aprontava muitas brincadeiras com a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Mesmo sem saber ler muito a menina ia passando as páginas do livro e se encantando com as imagens dos  personagens, as paisagens, e as letrinhas começavam a pulsar das páginas como se fosse um convite para as brincadeiras. Já conseguia até entender o que diziam as palavras, letra por letra, e tudo ia se encaixando.
Agarrada ao livro, a menina dormiu. Dormiu um sonho profundo. E sonhou não só com as bonecas mas com tantas outras possibilidades que sua imaginação ia criando. Sonhou, afinal, que tinha ganhado um presente especial: um livro, e que com ele poderia descobrir muitas coisas novas e compartilhar com os outros meninos e meninas da rua, da escola, da comunidade. Aliás, lembrou que lá na comunidade existia uma biblioteca, cheia de outros livros, só esperando alguém abri-los.


Uma boa Leitura, e um feliz Natal!


( Por Vanessa Omena).


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