Saiu triste da festa. Antes,
parecia ter se divertido com os amiguinhos enquanto esperavam ansiosos a hora
do sorteio dos brindes de natal. Todos receberam um papel com os números,
e a cada número sorteado ela esperava ansiosa por sua prenda.
Dentro de uma grande cesta de
palha, ao lado de uma árvore de natal preparada com galhos de uma árvore
recolhida ao redor, e caprichosamente decorada pelos moradores daquela
comunidade, bichinhos de pelúcia, bonecas, jogos infantis, e bolas, eram os
presentes mais desejados, e que aos poucos iam chegando às mãos dos primeiros
sorteados.
Número 20. Pronto! foi a vez de
um dos pequenos receber o cavalinho de pelúcia que há anos tinha feito a
alegria de outra criança, e que depois de tempos esquecido em algum lugar foi
entregue por seu dono para que a mãe juntasse com outras prendas que seriam
entregues para a doação. Era ainda um brinquedo conservado, desses que parecem
que não se fabricam mais, e que depois de limpo e embalado chegaria como novo
às mãos de uma criança

Número 35.E lá estava a linda
boneca, de longos cabelos pretos e olhos bem azuis, como os cobiçados por
tantas mães de anjinhos, e que ia agora para os braços de uma outra bonequinha,
que tinha olhos escuros, opacos, mas que logo ficaram brilhantes ao segurar
aquele inesperada prenda de natal.
- Olha,mamãe, como ela é bonita -
disse a pequena, agarrada a sua nova companheira.
E pouco a pouco os números iam
sendo sorteados, fazendo a festa de crianças e adultos que também foram
sorteados com algumas prendas de natal. A bola, embalada em um lindo papel
verde, chegou nas mãos do menino Yan, que ha meses sonhava em ter uma bola de
verdade, costurada e de couraça, para chutar no campo com a turminha da
Bititinga.
- A outra bola, disse ele, era mais para os
meninos maiores, e com essa vamos ter mais tempo para brincar.
E na saída, a menina segura a
prenda e a mãe, como se desculpando, foi logo dizendo:- É que ela ganhou um
livro, mas queria ganhar a boneca.
Vi que a menina nem sequer tinha
desembrulhado o papel celofane vermelho com um belo laço verde claro que
embalava o livro. Mas, segurava o embrulho nos braços como se segurasse a
boneca tão sonhada.
- Você não gosta de histórias? -
Perguntei, meio sem graça.
- A menina, um pouco encabulada,
olhou para a mãe, e a mãe novamente foi quem respondeu:
- É que ela ainda não sabe ler
direito. - Ela só gosta mesmo é de brincar de boneca.
Olhei para a menina, que parecia
ter uns 7 ou 8 anos, e que também era uma das mais ativas nas brincadeiras com
a comunidade. Gostava de pular, dançar, desenhar, correr...e disse:
- É. De fato uma boneca é um
lindo presente, mas existem muitos outros presentes que podem estar escondidos
bem aí, dentro de um novo presente como esse livro que você ganhou.
Ela esboçou um sorriso, e junto
com a mãe foram para a casa, com a prenda de natal
Antes de dormir a menina colocou
o presente em uma mesinha, ao lado da cama. Lembrou mais uma vez dos outros
brinquedos sorteados na festa, da bela boneca de olhos azuis...., e antes de
dormir, ouviu uma voz que parecia sair do embrulho vermelho.
- E então, menina, você não vai
me abrir? vai me deixar fechado aqui, enquanto eu poderia te mostrar lugares
diferentes, te fazer conhecer novos amigos, te ensinar tantas coisas novas...
Sem acreditar muito naquela
vozinha, a menina, ainda sonolenta, resolveu abrir a prenda e então deu de cara
com a capa de um livro que tinha a ilustração de uma boneca. Parecia engraçada,
sardenta, toda colorida, feita de pedaços de pano. Não tinha os cabelos bonitos
e os olhos azuis, mas dela emanava muita alegria. A menina estava tão
acostumada a sonhar com as bonecas de vitrine que essa, assim, tão simples,
parecia também muito familiar. Parecia com a boneca Emília, das história de
Monteiro Lobato, que aprontava muitas brincadeiras com a turma do Sítio do
Pica-Pau Amarelo.
Mesmo sem saber ler muito a
menina ia passando as páginas do livro e se encantando com as imagens dos personagens, as paisagens, e as letrinhas
começavam a pulsar das páginas como se fosse um convite para as brincadeiras.
Já conseguia até entender o que diziam as palavras, letra por letra, e tudo ia
se encaixando.
Agarrada ao livro, a menina
dormiu. Dormiu um sonho profundo. E sonhou não só com as bonecas mas com tantas
outras possibilidades que sua imaginação ia criando. Sonhou, afinal, que tinha
ganhado um presente especial: um livro, e que com ele poderia descobrir muitas
coisas novas e compartilhar com os outros meninos e meninas da rua, da escola,
da comunidade. Aliás, lembrou que lá na comunidade existia uma biblioteca,
cheia de outros livros, só esperando alguém abri-los.
Uma boa Leitura, e um feliz
Natal!
( Por Vanessa Omena).
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