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quarta-feira, 19 de junho de 2013

LER NA BITITINGA


Texto premiado no 12º Concurso FNLIJ LEIA COMIGO!*
Categoria RELATO REAL
Bititinga -  lugar onde fica a Biblioteca Comunitária Bititinga -  na década de 40 (acervo MISA)


Sábado, por volta de 1 e meia da tarde, partimos rumo à Bititinga, localizada na área rural do município de Messias, zona da mata alagoana. De carro o percurso é de cerca de 1 hora, saindo da capital, Maceió, caso o trânsito ajude. Antes de pegar a estrada, os preparativos para organizar na mala do carro as caixas com os livros doados e catalogados; algumas mudinhas ou sementes de plantas para o jardim que estamos ajudando a fazer em torno da biblioteca comunitária; e o que mais pudermos levar de doação, como estantes para os livros e alguns brinquedos e roupas. Às vezes o carro vai bem cheio, e outras vezes levamos apenas o que foi possível arrecadar naqueles dias. Mas, o mais importante, é que sempre temos algum livrinho para levar para a biblioteca.

Pelo caminho, paramos para comprar algum lanche para a meninada e, enquanto dirijo, em companhia de meu filho de 12 anos e de minha mãe, que morou na Bititinga com meu pai e as filhas, inclusive eu, ainda criança lá pela década de 60, quando o lugar era bem dinâmico e com uma pulsante usina de açúcar, vou pensando nas atividades que iremos fazer com a turminha, alguns bem pequeninos, e a maioria pré-adolescentes e adolescentes. Quando chegamos, alguns deles já estão em volta do clube onde são feitas as atividades do Projeto que recebeu o nome de Engenho de Leitura, Artes e Empreendedorismo Bititinga.

 A família do Geraldo Rosalino, morador antigo e ex-trabalhador da usina, é parceira no Projeto. Foi daí que nasceu a Biblioteca Comunitária da Bititinga que fica instalada em uma salinha do antigo clube da ex-usina.Geralmente, assim que chegamos vou logo chamando a garotada para a rodinha de leitura. Com o tempo sem chuva fica bem agradável fazer as atividades ao ar livre, na sombra das árvores frondosas que existem no lugar.Tem dias que tem mais gente na rodinha, e em outras vezes tem menos participantes, pois alguns estão fora ou ainda por chegar. Aos poucos vamos identificando cada um deles, principalmente os mais assíduos, e sentindo falta daquele que não pôde vir.





 Antes de iniciar a Contação de História do dia, conversamos sobre algumas novidades na comunidade, sobre o que foi lido na vez passada, e as crianças vão lembrando das histórias já contadas, e os que não participaram vão sendo motivados a ficar para ouvir uma nova história. Além da garotada, um ou outro adulto também acompanha quando pode.
Depois da contação é hora de fazer as atividades de artes, e o meu filho Louis Tiago, agora já um pré-adolescente de 12 anos, tem o maior jeito para comandar as brincadeiras, que pode ser um desenho, um jogo, ou dessas atividades de recortar, colar, perguntar e responder, enfim, a turminha, principalmente os menores, precisam de estimulo para participar, perguntar, ler e aprender, e o que queremos com as brincadeiras é despertar a vontade de todos em se encantar com os livros, para além das leituras obrigatórias da escola, é claro.

 Aliás, na Bititinga de hoje existe uma creche mantida pela prefeitura local , além da escola municipal que existe desde os tempos da usina. Os maiores completam os estudos na cidade de Messias. Isso é muito bom, pois ninguém fica fora da sala de aula , e a biblioteca é um estímulo a mais para que as crianças, jovens e adultos tenham acesso aos livros nas horas de lazer.

Um dia pedimos aos meninos e meninas, geralmente na faixa entre 6 e 15 anos, para escreverem, cada um, uma frase sobre o que é ler para eles.Recolhemos as frases com os nomes e as idades das crianças para imprimir em um papel do tipo cartolina, e que na próxima vez que formos à Bititinga será lido por cada um deles, comentado, e depois vamos colar as frases nas paredes da biblioteca. Algumas dessas frases dizem: Ler é imaginar mundos novos; Ler é aprender e criar; Ler é viajar....

Comparo o projeto na Bititinga como uma sementinha que foi plantada em um lugar que esteve tanto tempo abandonado, desde que a usina fechou em meados dos anos 90. Antes era um lugar próspero, com emprego para os moradores, a maioria trabalhadores de fazendas de cana-de-açúcar ou da própria indústria. Depois da venda da usina e da posterior falência da indústria, muitas famílias deixaram o lugar , e os que ficaram lutam por dias melhores.

Além das visitas à comunidade para as atividades do projeto e da biblioteca, resolvi fazer um blog justamente para dar vazão a tudo isso. Pena que a comunidade da Bititinga ainda não tenha acesso à internet por lá, mas mesmo assim vamos registrando tudo e oferecendo dicas aos internautas.

As doações são sempre muito bem vindas. Recebemos livros de vários gêneros, a maioria didáticos, mas também chegaram doações de livros paradidáticos , infantil, infanto-juvenil, técnicos e coleções. Por meio do blog vou conhecendo outros projetos de bibliotecas comunitárias e essa sinergia é muito importante, pois vamos aprendendo muita coisa com quem já vem lidando com o incentivo à leitura. É só buscar na web e vamos conhecendo quantas iniciativas bacanas existem pelo Brasil à fora.

Um desses contatos veio de longe, de uma brasileira que mora na cidade de Zundert, na Holanda, e após uma troca de e-mail ela ficou de mandar uma doação de livros infantis da Biblioteca de Breda, onde ela trabalha como voluntária. Essa moça é a Juliette Fernandes, que reaproveita os livros infantis que são substituídos nessa importante biblioteca da Holanda e traduz as historinhas para a nossa língua portuguesa, num trabalho muito interessante de colar, e adesivar por cima do texto original, a tradução para os nossos pequenos, e assim fazer com que as crianças daqui tenham acesso a esses livrinhos tão especiais.

Sobre esses livros vindos da Holanda, eu postei no blog Engenho de Leitura e Artes Bititinga uma historinha que se chama "Os livros viajantes", e dessa forma vou mostrar as crianças da Bititinga de onde eles vieram, quem enviou, e assim faremos uma contação diferente com a criançada. O bom mesmo desse projeto é saber que, com pouco investimento e a ajuda de pessoas que nem esperávamos, podemos fazer algo inovador naquele lugar, dando mais possibilidade de lazer, cultura, entrosamento e novas descobertas por meio da leitura compartilhada, e a biblioteca comunitária é sempre um ótimo ponto de partida para novas possibilidades. (Vanessa Omena).

* O texto com a premiação serão publicados na edição de Julho de NOTÍCIAS da FNLIJ.




Biblioteca Comunitária da Bititinga é ponto de encontro e lazer da criançada






2 comentários:

  1. Vanessa, muito lindo o texto. Foi merecido o 1°lugar amiga.
    Fiquei encantada com o projeto Bititinga.

    Célia

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