Não é de hoje que o nosso velho Sertão castigado de "guerra" (nesse caso a secular falta de políticas públicas para que o sertanejo - antes de tudo um forte - conviva com o chamado fenômeno da seca - embora já podemos ver melhoras), tem sido tema da nossa vasta literatura regional, que há muito rompeu fronteiras e ganhou mundo. Que o diga o personagem Fabiano, do famoso romance Vidas Secas, do Mestre Graça. Na música a Asa Branca bateu asas e voou temendo a fome, dizia Gonzagão. Outro dia, levamos para a Biblioteca Comunitária da Bititinga o livro O voo da Asa Branca (editora Prumo), do carioca Rogério Soud, uma releitura ilustrada da canção Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (Estante FNLIJ). Pedimos a Aparecida, sertaneja que é, para fazer um texto sobre o Sertão baseada nas imagens do livro e em suas memórias. Nascida e criada no sertão alagoano, a filha de Victor, o Vaqueiro Destemido de Major Izidoro, Cida fez bonito, e nos presenteia com uma abordagem atemporal sobre o nosso tão falado Sertão. Segue o texto da Cida: A Vida no Sertão.
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A sertaneja Aparecida , a Cida, moradora da Bititinga, com Alcides, um de seus filho, é responsável, junto com Geraldo Rosalino, pelo acervo da Biblioteca
A Vida no Sertão
Maria Aparecida dos Santos*
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A vida do sertanejo é muito sofrida, terra seca, sem água
potável para se beber, o gado morrendo
sem ter o que comer, ainda bem que se planta muita palma, para matar a fome e a
sede do gado.
A terra se partindo de tão grande que é a seca, toda a
população e principalmente as crianças, procurando um pouco de água para matar
sua sede, e você olhar para todos os recipientes de casa e ver que estão todos
vazios, dá um desespero...
Só lhes resta ir até um açude, este mesmo, quase que na lama,
por falta de chuva... Você olha e não vê outra opção, se não encher seus baldes
ou potes e sair com eles na cabeça, desta água se bebe, se cozinha, lava
roupas, sem mesmo se preocupar, com os perigos, que esta pode trazer à saúde.
No Sertão você só vê as árvores com seus galhos secos,
queimados pelo sol. O sertanejo chora e lamenta por ver seu rebanho morrendo.
Eles fazem procissão com o balde na cabeça, para que Deus mande logo chuva. Com
essa situação tão caótica muitos sertanejos abandonam suas casas, deixando ali
suas famílias sem mesmo ter o que comer, e parte em busca de uma vida melhor na
cidade grande. Só que chegando na cidade grande é mais um sofrimento, porque o
sertanejo só sabe mesmo é cuidar de gado e lavoura.
Muitos ainda vivem em casinhas bem humildes, é muito
sofrimento para seus filhos verem a mãe chorando por não terem nem um pedaço de
pão para alimentá-los. Mesmo assim, o sertanejo ainda persevera na luta,
vivendo cada um como pode, comprando água a 7,00 ou a 10,00 R$ a carga de água,
mas aqueles que não têm dinheiro para comorar água, tem que beber água suja, às
vezes lameada, ou como diz o sertanejo “água barrenta mesmo”. Diante de tanto
sofrimento e tristeza, são felizes. Olhando para o céu, debaixo de um sol
escaldante, veem o voo de uma pombinha branca, bem no alto como se quisesse
transmitir alguma mensagem de fé e esperança.
* Sertaneja e moradora da Bititinga.